quarta-feira, abril 30

Pela calçada do tempo
























Caminhava o arrasto da sombra
sob a linha ténue da vida.

Curta a senda, longos os passos…
pela Rua das Flores que lentamente subia.
Da calçada, apenas o empedrado lhe sussurrava
uma canção antiga que trauteava baixinho
embalando a caixa de chocolate
nos seus braços trémulos e finos.

Extenuado, febril pelo sol do meio-dia
aninhou-se no degrau da soleira de uma casa
desfiando memórias encanecidas:
A licença obtida para ver a família;
A turbulenta viagem a bordo do Santa Maria;
Aqueles braços pequeninos que para ele corriam…

Adormeceu a existência do tempo
num envolvente sorriso.



(minha prestação para o 2º Jogo daqui )

Pintura de Frederick Judd Waugh

sexta-feira, março 21

Páscoa


Desejando
uma Feliz
Páscoa a
todos,
transcrevo
o texto de
Humberto
Tanure que
me foi enviado
pelo meu amigo
Manoel Carlos


"Páscoa é uma palavra hebraica, e a Páscoa Judaica (Pesach em
hebraico, Passover em inglês) celebra a liberação dos hebreus do
cativeiro egípcio, quando este povo atravessou o Mar Vermelho
guiado por Moisés.
Por outro lado, a Páscoa Cristã celebra a ressurreição de Cristo,
e é a data mais importante do calendário cristão.

As duas efemérides são interligadas no tempo, pois a Paixão de
Cristo aconteceu durante a celebração da Páscoa Judaica,
conforme descrito na Bíblia.
A Páscoa é uma festividade móvel, ou seja, é celebrada em uma
data diferente a cada ano.
Todas as demais festas móveis do ano eclesiástico são
estabelecidas a partir da fixação da data da Páscoa.

Seguindo o primeiro concílio de Nicéia de 325 d.C., o dia da
Páscoa Cristã é o primeiro Domingo posterior à primeira Lua
Cheia que ocorre no dia ou depois de 21 Março, o dia "oficial"
do Equinócio Vernal, ou Equinócio de Outono no Hemisfério Sul.
Note que se essa primeira Lua Cheia cair num dia de Domingo,
a Páscoa Cristã é celebrada no Domingo seguinte; a razão deste
deslocamento é evitar que a Páscoa Cristã venha a coincidir com
a Páscoa Judaica, que é celebrada no dia deste particular
plenilúnio, caia ou não em um Domingo.

A Páscoa Cristã sempre ocorre entre 22 de Março e 25 de Abril.
Para as igrejas cristãs ortodoxas, a data da Páscoa é calculada
segundo o calendário Juliano, e não pelo Gregoriano como é o
nosso caso.
Numa perspectiva mais ampla, a Páscoa dá continuidade a uma
tradição pagã milenar, a celebração da chegada do Equinócio, que
marca o final do Inverno e a chegada da Primavera, evento tão
importante para os povos primitivos do Hemisfério Norte.

Neste ano de 2008 a Lua Cheia Equinocial ocorre no próximo dia
21 de Março, Sexta-Feira Santa, e a Páscoa no Domingo seguinte,
dia 23 de Abril.

Como se vê, qualquer que seja a nossa inclinação religiosa, no
próximo Domingo temos muito o que celebrar.
Feliz Páscoa para todos!

Humberto Tanure"

(imagem Google)

quinta-feira, fevereiro 28

Divergência


Uma simples moldura
Um elaborado lenço

E…

O reverso da palavra
Em azul suspenso


(pintura de Eduardo Luiz)

domingo, outubro 14

Em silêncio canto

Canto o fio da mensagem
Condutor das horas mortas
Do vento as ondas, a dor
Quando bate à minha porta

Canto a barca florida
Deslizando em mansas águas
A breve nota, distraída
Que me enleia e me abraça

Os finos véus de areia canto
Do deserto em ouro tecido
O luar, o monte, o mar
Do sonho, a voz ao ouvido

Das crianças canto os passos
Em crescimento contínuo
E mesmo deitada danço
Palavras de sol e abrigo

E se por Ventura as canto
Desfolho searas antigas
Ternas memórias, encanto
No nomadismo dos dias

(pintura de Maxfield Parrish)

quarta-feira, agosto 22

Vida é...


Dor, esperança, alegria.
Um sentir que se amofina ante um olhar calado.
Um mar que nos beija, encanta
e com seus passos de dança
desfaz rastos de outras vidas -
esboços na areia branca.
Um acto de amor em crescendo
no germinar de sementes entre sorrisos e dor.
Deserto onde uma flor desponta num arco-íris de cor.
Uma voz arrastada e rouca derramando a sua sina.
Fragmentos de vento na tristeza escondida
de seres que nada contam.
Uma omissão que se pinta em solfejos musicais
se sofrida, se faminta…
Um coração comprimido de um amor que não alcança
naquela mão estendida por ternura, da criança.
Uma montanha, uma rocha, uma árvore florida.
Simplicidade, fantasia, em fios de prata tecidas.
Uma nascente, uma fonte, uma pinga espreguiçada
que a sede ao velho mata
cansado e corcovado de tanto cavar a vida.
Banco ou vão de escada em cada canto, esquina
quando o tempo adormece pelas moitas e estradas
o arrasto do peso de dias das teias sem luz tecidas
nos passos amorfos, dolentes
dos malabaristas da vida.

De cegueira não entendo e sigo
serenamente
lançando amor e sorrisos
pela Vida


pintura de Jane Yechieli

(republico este poema em agradecimento às
amáveis palavras da pintora)
(poema in "Transparência de Ser")

terça-feira, agosto 14

Talvez... Ave...

Talvez seja uma simples tela
em união de letras espalhadas
talvez um breve momento
espelho de vento que talhas
ou apenas um além em azul e prata
terra que bebes e não mata
a sede do teu rumo de silêncio

Talvez seja a ansiada espera
por ternura dos teus braços,
o sonho que em letras enfeitas
o teu mundo acordado
de penas e folhas secas
sobre a raiz do muro caiado
e que deparas da janela
entreaberta pela brisa suave

Fora eu esse talvez projectado
na substância diluída em cada traço
e dir-te-ia que o “era uma vez”
em contas de fado tecido
será da ave o doce abrigo
nas asas de um voo plano
em amor, dádiva e sorriso



segunda-feira, agosto 6

Maria

Maria está pensativa
perdeu o fio à meada.
O que fará a Maria
entre linhas e fitas
de cor igual, desbotadas?

Maria em silêncio escuta
ao redor o que se passa.
Assiste incrédula e muda
ideias jorradas em brasa
por quem mais pode e usa
pressa em mostra de nada.

Sentada está a Maria
na soleira da calçada
tecendo contas à vida
tão difícil, agastada,
relembrando a correria
de canastra pelas casas -
venda que o peixe trazia -
e o pregão de cada dia
Maria soltava com graça.

Maria que o sonho abraça
com a ternura dos anos,
borda palavras em fitas -
nuvens, anjinhos, pecados -
sob o sol que tisna e traça
vínculos na face cansada.

Maria que os braços pende
com os olhos rasos de água,
pensa mas não entende
as projecções de gente
já tão rica e anafada
e que à plebe estende
migalhas, apenas migalhas.

Maria, simples Maria
mulher do povo, enjeitada
pelos anos de faina plana,
borda e ainda acredita
na liberdade, na Dita
tão triste, amarfanhada.


(pintura de Jaime Martins Barata)

segunda-feira, junho 11

Breve nota

Olá a todos

Apresento as minhas desculpas pela ausência forçada.

Estou sem computador e ainda não sei se terei de
adquirir um novo.

Este tem um sistema operativo muito diferente e,
além disso, só esporadicamente me é permitido o
acesso.

Espero que compreendam esta situação imprevista
e a todos desejo dias plenos de sol e, acima de tudo,
que sejam felizes.

Com muito carinho e amizade, um grande abraço da
Amita

sábado, maio 12

A mais bela flor

















És a mais bela flor do meu jardim
em pontas suspensa.

O movimento, a alegria,
o preenchimento do dia,
da música, o aroma sonante
quando, lá fora, o sol sorria
no quarto da hora
início da tarde

E te beijo no pleno carinho
de mãe amada que tece dias
pela hora que luz se abria
perdurando a alegria serena
do que nunca tarda




Excepcionalmente, reabri este blog parabenizando
a mais bela Flor do meu ameno jardim, a minha filha.


A todos agradeço o carinho que me têm demonstrado
e apresento as minhas desculpas pelos atrasos.
Nem sempre o que se deseja se alinha nos traços.
Um bjinho a todos que, na demora, não esqueço.

(desconheço o autor da imagem)

domingo, fevereiro 18

Até sempre!

Este sítio permanecerá em descanso por tempo indeterminado.

Sensibilizada, Amita agradece o imenso e inesquecível
carinho que lhe dedicaram durante a existência deste
espaço.

Com a ternura de um abraço, a todos deseja um caminho
pleno de brilhos.

Bem Hajam!

terça-feira, fevereiro 13

Sombras


Imagem de Stanmarek


Ausente de mim vagueio
Pelas palavras de nada
Que me entram em rajadas
Incongruentes
Alteradas
Em cada despertar luzente

Ruídos de posse perdidos
Pela lonjura do tempo
Se não de existência sentida
Absurdos são dementes
Na teimosia presente
De um orgulho ofendido
Cego de tudo que teve
E esvaiu em fumo
E vento

Todos os dias há máscaras
Torcidas
Diferentes
Delineadas ou espontâneas
De quem passa a vida leve
Na brisa fútil correndo…
E a voz do sorriso esmorece
Na pressão que obscurece
Cada aurora brilhante
E clara
Da vida serena

quinta-feira, janeiro 18

"Se... talvez um dia..."


Lemo-nos perdidos no tempo
Que o vento distancia
E perante o agreste silêncio
Vivemos cada momento
Como outrora se fazia


E sorvemos
O dedilhar de palavras
Rubras, escassas, imaculadas
No afago da brisa dolente
Que pelo espaço se doba
Desdobra e cala
Sob águas convergentes


E lentamente
Cerramos as pálpebras das asas
Quando a noite nos adentra
E mergulhamos no mesmo vão-de-escada
Onde os sonhos musicados
Afloram a pele ausente


Assim te bebo e te apreendo
Na hora do medo parada.
E pelos traços na estrada dos mares
Contigo percorreria
Se…talvez um dia…
De amor me falasses



(imagem recebida sem identificação do autor)
poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, dezembro 28

E do amor ...


Se soubesses, meu amor, o quanto
A saudade tece seus dias
Saberias, sim, saberias do seu pranto
E com leves véus cobririas
As letras breves … de encanto


Se soubesses do amor as suaves telas
Que pinto, desenho em branco
Abririas, sim, abririas folhas belas
Sobre a noite que, entretanto,
Te olvida, cinzela… calando


Mais do que tu soubesse eu do amor
Na placidez amena de um canto
Usaria em teias macias cada cor,
Contente,
E na pele do tempo banhada em flor
O areal da vida sorriria enquanto
Dormente
Meu colo embalas… de espanto


(imagem de Tolga)
Com carinho a todos desejo um Feliz 2007
Poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, dezembro 14

Apesar de tudo...


Apesar de tudo
Pelo silêncio se espalha um canto
Um voo desnudo
O azul abraço do espanto
No pêndulo em horas tecido.


Um breve instante, um minuto
No leito aveludado, branco
Do rio cantado quando lido
No ondular ameno da jangada.


Apesar de tudo
Os laços que em pontas dançam
Equilibram do chão as tábuas
No rosto corado das crianças
Em amor e claridade
Na voz alegre das palmas.


E pela brisa bafejadas
Reluzem serenas asas nuas
Sobre a foz que o rio alcança
Como o amor suspende a cidade
Adormecida em oiro
E em prata despertada.

(fotografia de Maurício Martins)

quarta-feira, novembro 29

Urgentemente


É urgente o amor
É urgente destruir certas palavras –
Ódio, solidão e crueldade…



É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.



Cai o silêncio nos ombros
E a luz impura até doer
É urgente o amor,
E urgente permanecer.



Poema de E. Andrade -
gentilmente enviado pelo amigo Vítor C.
(Foto de Verónica Carter)

sexta-feira, novembro 17

em rosa rubra

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura


Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos


Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura


Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra



Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

Poema in "Transparência de Ser"

segunda-feira, novembro 6

Sem Tempo ...


E conversas comigo…
E me embrenho nas palavras significativas
De símbolos pairando nas entrelinhas
Que desvio… desvias…
Como se o tempo delas não fizesse sentido

E falamos com leveza
Da futilidade dos dias
Da doença das viagens em cadência
Do tudo e do nada que temos
Na omissão constante de brilhos plenos

E sorrio… sorris…
Num prolongado breve momento
De um tempo ido… sem fim
E cruzam-se a esperança e a nostalgia
Entre nossos anos leves de vento
Encanecidos nos cabelos

Que fio… que fias…
Pelas palavras serenas
Merecidas e eternas
Numa entrega simbólica e plena
Sem tempo…


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, outubro 27

Flores


Espalham-se pelos caminhos
Os lírios, as açucenas
Os tapetes de rosas que trilhas
São cânticos de árvores antigas
Na sua rama serena

E dás-me as boas-vindas
E te desfazes em traços
Prolongando o abraço
Que o tempo distancia
E a hora treme de estrelas

E me dizes: corre, avança
Nesse cantar de criança
Desfolhado em brancas penas
Quando o silêncio se abre
Na acalmia que sabes
E em segundos voas, apenas

Descem pelas folhas, sobre mares
As orvalhadas pétalas das flores
Qual árvore por terra jorrada
Livre, já despojada
Dos sons utópicos da noite
Sorvendo do passado os lamentos
De quem seguiu outra estrada.

E os brados dispersos do vento
Em sol se abrem no aconchego
Do pó de areia no deserto
Como renascem no Outono
As flores delicadas e singelas
Em sorrisos ternos, amenos.
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 17

A Palavra e o Poema


Como eu gosto do sorriso matreiro
Bailando entre cada espaço branco de linhas
Quando desenhas ou pintas
A palavra túrgida
Na polpa sumarenta da escrita

Como eu gosto na palavra o desenho
Esbatido, sombreado em cada traço
Na concisão daquele toque inteiro
Como bagos de uva pendentes
Em rubro cacho

Como eu gosto no dedilhar leve os conceitos
Em comunicantes solfejos de música
E do perfume o sabor a forma lúdica
Pairando no corpo do céu
Onde no ilimite a paisagem copula

E a palavra avança voluntariosa e surda
Pelos espaços brancos gemidos de linhas
Sempre que a cobres desenhas ou pintas
No prazer do mistério feito véu
Desligada do ocaso que acende ou mina
O avesso do mundo onde o poema flutua


(pintura de Graça Martins)
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 10

O Regresso


E sempre me surpreendes
E me indago: porquê?
Se já nem o próprio tempo
Se reveste das folhas doces
E sombra sépia de nós é

E sempre me pergunto pelo farol suspenso
Pelo voar pleno, imenso
Entre as cores deslizantes de um só traço
Que na minha caixa guardo
E onde plano… inconsciente

Ao mesmo ponto de partida regresso
Leda, nua, incauta e breve
Da fuga que a razão proclama
Pela casa, o esquecimento
Pelas janelas que a brisa traça, abertas
Pelas portas irisadas, amarelas
Pelo alpendre das ondas translúcidas
Gotejantes em forma de letras
Na escada onde me abrigo e suspendo
O ar rarefeito do tempo

E releio do sorriso a envolvência
Dos pontos leves que sigo
Do silêncio a transparência
Quando em branco me sento
Leve me surpreendo
E me indago: porquê?!!!
Poema in "Transparência de Ser"