sexta-feira, outubro 27

Flores


Espalham-se pelos caminhos
Os lírios, as açucenas
Os tapetes de rosas que trilhas
São cânticos de árvores antigas
Na sua rama serena

E dás-me as boas-vindas
E te desfazes em traços
Prolongando o abraço
Que o tempo distancia
E a hora treme de estrelas

E me dizes: corre, avança
Nesse cantar de criança
Desfolhado em brancas penas
Quando o silêncio se abre
Na acalmia que sabes
E em segundos voas, apenas

Descem pelas folhas, sobre mares
As orvalhadas pétalas das flores
Qual árvore por terra jorrada
Livre, já despojada
Dos sons utópicos da noite
Sorvendo do passado os lamentos
De quem seguiu outra estrada.

E os brados dispersos do vento
Em sol se abrem no aconchego
Do pó de areia no deserto
Como renascem no Outono
As flores delicadas e singelas
Em sorrisos ternos, amenos.
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 17

A Palavra e o Poema


Como eu gosto do sorriso matreiro
Bailando entre cada espaço branco de linhas
Quando desenhas ou pintas
A palavra túrgida
Na polpa sumarenta da escrita

Como eu gosto na palavra o desenho
Esbatido, sombreado em cada traço
Na concisão daquele toque inteiro
Como bagos de uva pendentes
Em rubro cacho

Como eu gosto no dedilhar leve os conceitos
Em comunicantes solfejos de música
E do perfume o sabor a forma lúdica
Pairando no corpo do céu
Onde no ilimite a paisagem copula

E a palavra avança voluntariosa e surda
Pelos espaços brancos gemidos de linhas
Sempre que a cobres desenhas ou pintas
No prazer do mistério feito véu
Desligada do ocaso que acende ou mina
O avesso do mundo onde o poema flutua


(pintura de Graça Martins)
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 10

O Regresso


E sempre me surpreendes
E me indago: porquê?
Se já nem o próprio tempo
Se reveste das folhas doces
E sombra sépia de nós é

E sempre me pergunto pelo farol suspenso
Pelo voar pleno, imenso
Entre as cores deslizantes de um só traço
Que na minha caixa guardo
E onde plano… inconsciente

Ao mesmo ponto de partida regresso
Leda, nua, incauta e breve
Da fuga que a razão proclama
Pela casa, o esquecimento
Pelas janelas que a brisa traça, abertas
Pelas portas irisadas, amarelas
Pelo alpendre das ondas translúcidas
Gotejantes em forma de letras
Na escada onde me abrigo e suspendo
O ar rarefeito do tempo

E releio do sorriso a envolvência
Dos pontos leves que sigo
Do silêncio a transparência
Quando em branco me sento
Leve me surpreendo
E me indago: porquê?!!!
Poema in "Transparência de Ser"