Maria está pensativa
perdeu o fio à meada.
O que fará a Maria
entre linhas e fitas
de cor igual, desbotadas?
Maria em silêncio escuta
ao redor o que se passa.
Assiste incrédula e muda
ideias jorradas em brasa
por quem mais pode e usa
pressa em mostra de nada.
Sentada está a Maria
na soleira da calçada
tecendo contas à vida
tão difícil, agastada,
relembrando a correria
de canastra pelas casas -
venda que o peixe trazia -
e o pregão de cada dia
Maria soltava com graça.
Maria que o sonho abraça
com a ternura dos anos,
borda palavras em fitas -
nuvens, anjinhos, pecados -
sob o sol que tisna e traça
vínculos na face cansada.
Maria que os braços pende
com os olhos rasos de água,
pensa mas não entende
as projecções de gente
já tão rica e anafada
e que à plebe estende
migalhas, apenas migalhas.
Maria, simples Maria
mulher do povo, enjeitada
pelos anos de faina plana,
borda e ainda acredita
na liberdade, na Dita
tão triste, amarfanhada.
perdeu o fio à meada.
O que fará a Maria
entre linhas e fitas
de cor igual, desbotadas?
Maria em silêncio escuta
ao redor o que se passa.
Assiste incrédula e muda
ideias jorradas em brasa
por quem mais pode e usa
pressa em mostra de nada.
Sentada está a Maria
na soleira da calçada
tecendo contas à vida
tão difícil, agastada,
relembrando a correria
de canastra pelas casas -
venda que o peixe trazia -
e o pregão de cada dia
Maria soltava com graça.
Maria que o sonho abraça
com a ternura dos anos,
borda palavras em fitas -
nuvens, anjinhos, pecados -
sob o sol que tisna e traça
vínculos na face cansada.
Maria que os braços pende
com os olhos rasos de água,
pensa mas não entende
as projecções de gente
já tão rica e anafada
e que à plebe estende
migalhas, apenas migalhas.
Maria, simples Maria
mulher do povo, enjeitada
pelos anos de faina plana,
borda e ainda acredita
na liberdade, na Dita
tão triste, amarfanhada.
(pintura de Jaime Martins Barata)

Maria, simples Maria, fruto e semente da vida cotidiana que se reinventa a cada dia.
ResponderEliminarBonita a escolha como sempre.
ResponderEliminarAmiga, espero que esteja tudo bem e que as férias sejam motivos de felicidades.
Bjnhs
ZezinhoMota
Escreves tão bem...
ResponderEliminarGosto muito da tua poseia.
Beijinhos.
Gostei imenso de estar aqui e espero que as férias não abrandem a inspiração para que possa desenvolver este muito interessante blogue.
ResponderEliminarAdoro estas MARIAS, tão cheias de memórias e mundos (pessoas)por elas passadas. Parecem adormecias e distraídas pela idade, mas não, são excelentes observadoras e ainda tenazes no que podem e fazem mesmo cansadas. Gostei tanto de ler esta homenagem às Marias Amita. Dou-te os meus parabéns amiga! Beijinho grande...
ResponderEliminarLindo o poema e linda a pintura.
ResponderEliminarJinhos mil
"Maria que os braços pende
ResponderEliminarcom os olhos rasos de água,
pensa mas não entende
as projecções de gente
já tão rica e anafada
e que à plebe estende
migalhas, apenas migalhas."
Sabes, já li este poema não sei quantas vezes e sempre que o leio apetece-me chorar...
Por esta Maria, por todas as Marias...de olhar triste e coração cheio de tanta coisa que têem para nos oferecer,assim queiramos aceitar...
Um poema de extrema sensibilidade, da tua forma de olhar o mundo exterior e, o interior também.
Beijinhos e grata por tudo o que nos ofereces.