terça-feira, maio 30

Transparência de Ser...


Imagem de Ellert Grétarsson


Esquemas, sistemas, desejos, vontades.
Quatro palavras martelando as cidades
Folhas desfalecidas transportando rodopios
Esvoaçavam pelo parque

E voltavam….

Esquemas, sistemas, desejos, vontades.
Do solo se erguiam raízes… iniquidades…
Velozes na corrente em desatino
Numa sonora invisibilidade

E reviravam…

Desejos, sistemas, vontades, esquemas.
Noites mordendo rasgos em leves temas
Soltavam teclas em correrias mudas
Surdas, absurdas, compactas,
Na colheita de frutas maduras

E regressavam
Dos buracos escavados nas cidades
Em círculos rubros ao mato
Onde as inventadas cerejas
Cândidas, plácidas e vermelhas
Em pés verdes disfarçavam
Desejos, sistemas, vontades, esquemas.


Inspirado num texto do blog Virtual Realidade

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, maio 26

Dádiva


Pintura de Freydoon Rassouli

Ofereço-te rosas e lírios
E todas as contas que fio
Para que possa cantar

Dos montes e vales que sigo
Ofereço-te o aperto do grito
E as encostas do luar

A doce água dos rios
Do oceano, o abrigo
E as pradarias do meu mar

Do vento, as rajadas silencio
Com pirilampos a noite ilumino
E das arestas do caminho
Afasto esses densos limos
Tecendo serenos brilhos
Que te ofereço com carinho
Na trama branca do linho

Mas deixa…
Deixa-me cantar
A ternura do sorriso

domingo, maio 21

Era em Maio...

Intercalado na palavra soletrada
O beijo
Ansioso, ávido, guloso
No fluir da descoberta
Sorvia a hora incerta
Do logo… do amanhã…

Inclinadas no recosto do dia
As mãos
Ternas, tímidas, amenas
Em floreados movimentos
Tacteando a seda a alegria
Da música cúmplice de sal

Enternecidos no rubor da brisa
Os olhos
Cuidadosos, doces, ardorosos
No aroma que pairava leve
Entre o temor e o desejo
De seus arrojos contidos

Era em Maio
Que nesse interregno de tempo
As orlas luzentes do mar
Enrolavam a areia fina
Arrastando-a para o seu reino
No leito da utopia
(pintura de Tanja Hoffmann)

quinta-feira, maio 18

Interiorização


Tudo o que aqui vês faz parte dela
Dessa sombra fugidia e discreta
Em perpétuo movimento

Tudo o que dela vês são filamentos
De voz sussurrando o silêncio
Em terna forma de amar

Aromas circulares em cadência
Elevam as quatro pontas do tempo
Sempre que a sentes no ar

Pelos sulcos que a água o fogo traçam
Cruzam-se aves verdes em cantatas
Na harmonia do pêndulo

Se a sombra no pensamento desliza
Cortam-se-me as palavras com dolência
E esta pedra onde repouso e me sento
Me fita
E em estilhaços se desfaz

segunda-feira, maio 15

De Maio, canto...














Quando me canta a saudade
Tão profunda, tão inteira
Por mais versos que cante
Não adia nem remenda
O que a saudade lembra

Cada história é gravada
Bem no fundo do meu peito
E os dias em desfolhada
Pairam em fios estreitos
Nesta longa caminhada

De Maio canto o primeiro
Que em três se repartiu
E em cada esquina enfeito
D’alegres, tristes espelhos
Cantigas que Maio abriu

Leves voam o quarto, o sexto,
No sorriso que me enlaça.
Os décimos segundo, terceiro…
E nos caminhos percorridos
Pinto de flores, de brilhos,
A memória que não pára

Se a saudade me lembra
Me aninho no azul, no branco,
E teço veladas letras
De amor, de paz e de laços
No doce silêncio de um traço



Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, maio 12

A cidade das tílias

As tílias lançam leves flocos pelo ar
Partículas de letras dispersas
Pelo fulgor da Primavera
E esboçam desejos em danças
Subtis, doces e belas

Levadas pelo calor do espaço
Percorrem fluxos da brisa
E os brilhos que espalham
Transformam sorrisos e beijos
De intenso azul do mar

Na cidade das tílias dançam flocos
Como pássaros pendurados
Nos braços, nas mãos, nos olhos
Da serenidade de estar.

segunda-feira, maio 8

Infinity Spreads


Queria enrolar-me nos braços
Adormecer o cansaço
Colorir a fantasia feita de mel e de sal.
Prosseguir a caminhada
Na ternura da estrada
Que me leva e me traz.
Soltar este grito prensado
Pelas pedras que limos tapam
E pelos muros trepando os céus.
Abrir o silêncio do sol e fazer dos passos da lua
Aquela água tão pura que tudo limpa e desfaz.

Pudesse eu no tronco da árvore que abraço
Em miscelânea de cores
Musicar a partitura com claves de fá
Pendente nas mãos do poeta.
Juntar as notas dispersas
Nos olhos da ramagem verde
Que me cobre o azul dos dias plenos
Por cada areia dura lançada e não se vê.
Transformar em nuvem alada
E na espuma doce das asas
Me aninhar descansada.
Não sei de quê…

Entre o querer e o poder
Enorme é a distância
Que contemplo a cada estância.
Me exorcizo no vento espiralado
Na turbulência das águas
E desnudo o silêncio do terno sorriso
No sereno brilho do Ocaso

Voando para o Infinito
Deposito
Minhas asas

sábado, maio 6

Camuflagem



















Sobem os títulos pela casa
Isolada
Expectante
Camuflada de gente
Que não veste o que sente
E se sustenta de trocas

Doutor, quer um café?
Engenheiro, uma cerveja?
Conde que lhe ofereço hoje?
Marquês, uma água talvez…
E pensava: p’ra curar a bebedeira.

Eram mesuras, mezinhas
Saracoteios e fitas
Misturados com o chá da hora
Que se previa longa, dolente
Camuflada em contratempo
Desta música de agora

Que linda está, senhora!
Seu vestido é deslumbrante!
Madame que elegante!…
E pensava: quanta mossa...

Voavam beijos, beijinhos
Sorrisos e sorrisinhos
Naqueles olhos distantes
Que captavam deslizes
Para o corte
E em suaves meneios
Faziam pose
Para a revista na moda

Descem os títulos pela casa
Unificada
Repousante
Despida de gente

Da sombra de horas
Dormente

quarta-feira, maio 3

Em Flor de Azul















Saber de ti e das coisas
dessas… das concretas
das vulgares, das complexas
talvez mesmo indiscretas
as que poem tudo a nu

Quem sabe das andadeiras
e também das rotineiras
sejam duras ou ligeiras
últimas ou as primeiras
que a franqueza produz

Saber de ti e das coisas
é poder voar mais alto
ultrapassar os socalcos
das ondas que se deduz

Colorir uma tela dispersa
entrar na alma do poeta
e cantar... cantar a luz

Espalhar beijos abraços
da ternura tecer laços
e sorrisos tantos... tantos
qu’o saber de ti seja o canto
das coisas em flor azul



Poema in "Transparência de Ser"