
Fotografia de Zacarias Pereira da Mata
Trôpego, desalinhado
Trazendo o peso dos anos
Metidos na algibeira
Lá vinha o Zé, esgotado
Em seu passo arrastado
Descendo a escadaria
De pedra escura e fria
Para os lados da Ribeira
"Medo? Não! O Zé não tinha!"
O consenso era geral
Na tasca do Ti Jaquim
Tão cheia de pessoal
Todas as vozes se abriam
Numa algazarra sem fim
Inda puto endiabrado
Danado p'rá brincadeira
De fundilhos remendados
Surripiava o que via
Pão, fruta, rebuçados
Tremoços às vendedeiras
E de olhar amarotado
Assobiava e sorria
Medo?! O Zé não tinha!
Clamavam a um tempo certo
Era um líder, era o chefe
Do séquito que o seguia
Quando começava a feira
Chegada a puberdade
Em abono da verdade
Justiça lhe seja feita
Não havia rapariga
Que não caísse na graça
Daquele olhar trocista
Da sua meiguice inata
A que a bondade sujeita
Ora afoito ora arredio
Sua sorte foi tentar
Tornou-se embarcadiço
Do bacalhau luzidio
No Norte que se diz mar
Entre choros e desditas
Nos lenços das belas Marias
Acenando pelo cais
Imigrou, sei lá que mais…
O seu rasto se perdeu…
De quando em vez
Uma letra aparecia
Breve e tão fugidia
Que o povo da Ribeira
Murmurava: "Talvez
Apareça nesta vida"
E foi o que aconteceu.
Na tasca do Ti Jaquim
E não sendo vez primeira
Uma interrogação se abria
Então porque assim descia
Trôpego, em desalinho
Quase sem nexo nem tino
A calçada da Ribeira
Se, medo, o Zé não tinha…
Poema in "Transparência de Ser"