domingo, setembro 24

O Fado




Sempre te cubro, destapo
Me envolvo em teus fiapos
Quando pairo em tua voz.
Mas se faz calor ou frio
Em ti me aninho, sorrio,
M’embebo na pele de nós.

Te sento no banco a meu lado
Nas cordas silentes te agarro
Nesse dedilhar de fado dolente
Que percorre lesto, inconsciente
Num terno, breve momento
Em que solto te vejo, intenso.

Me acarinhas, dobras, caminhas
Num sopro de dedos apressados
Na viola qu’em traços de fado
Acedes, entonteces, confirmas
Com esses sons rubros, alados
Em gotas vertidos no espaço.

E cada vez que acaba o fado
Permaneço assim nesse estado
Suspenso, absurdo, irónico,
Anguloso, irreal, lacónico
E me pergunto, indago sem voz
Se a canção partida é voo de nós.
(Quase de partida para férias, agradeço a todos o carinho
que me têm dispensado. Quando regressar visitar-vos-ei
com satisfação.Até lá, fiquem com Luz e Paz nos vossos
caminhos).
Poema in "Transparência de Ser"

quarta-feira, setembro 6

Nunca…


Imagem de Jean del Ville


Criam-se hábitos e ritos
Sublinhados pelos anos
E no sufoco do grito
Mergulhos há que nos dançam
Em profundas mansas águas

No silêncio se medita
Içam-se frágeis cabanas
Dizeres de Nunca ditos
Pelas sombras se espalham
Como garras afiadas…

E pelos sulcos dos anos
Deslizam orvalhos pesados
Que ao longe saudades ditam
Em apelos e mensagens
No colo que tudo abriga
Que resolve e simplifica
Em suaves e ternas palavras
E que cobrindo se destapam
Das sombras surdas
Na inconstância dos passos.

Quantas vezes não existo...
Mas sou humana!
Poema in "Transparência de Ser"