quarta-feira, agosto 22

Vida é...


Dor, esperança, alegria.
Um sentir que se amofina ante um olhar calado.
Um mar que nos beija, encanta
e com seus passos de dança
desfaz rastos de outras vidas -
esboços na areia branca.
Um acto de amor em crescendo
no germinar de sementes entre sorrisos e dor.
Deserto onde uma flor desponta num arco-íris de cor.
Uma voz arrastada e rouca derramando a sua sina.
Fragmentos de vento na tristeza escondida
de seres que nada contam.
Uma omissão que se pinta em solfejos musicais
se sofrida, se faminta…
Um coração comprimido de um amor que não alcança
naquela mão estendida por ternura, da criança.
Uma montanha, uma rocha, uma árvore florida.
Simplicidade, fantasia, em fios de prata tecidas.
Uma nascente, uma fonte, uma pinga espreguiçada
que a sede ao velho mata
cansado e corcovado de tanto cavar a vida.
Banco ou vão de escada em cada canto, esquina
quando o tempo adormece pelas moitas e estradas
o arrasto do peso de dias das teias sem luz tecidas
nos passos amorfos, dolentes
dos malabaristas da vida.

De cegueira não entendo e sigo
serenamente
lançando amor e sorrisos
pela Vida


pintura de Jane Yechieli

(republico este poema em agradecimento às
amáveis palavras da pintora)
(poema in "Transparência de Ser")

terça-feira, agosto 14

Talvez... Ave...

Talvez seja uma simples tela
em união de letras espalhadas
talvez um breve momento
espelho de vento que talhas
ou apenas um além em azul e prata
terra que bebes e não mata
a sede do teu rumo de silêncio

Talvez seja a ansiada espera
por ternura dos teus braços,
o sonho que em letras enfeitas
o teu mundo acordado
de penas e folhas secas
sobre a raiz do muro caiado
e que deparas da janela
entreaberta pela brisa suave

Fora eu esse talvez projectado
na substância diluída em cada traço
e dir-te-ia que o “era uma vez”
em contas de fado tecido
será da ave o doce abrigo
nas asas de um voo plano
em amor, dádiva e sorriso



segunda-feira, agosto 6

Maria

Maria está pensativa
perdeu o fio à meada.
O que fará a Maria
entre linhas e fitas
de cor igual, desbotadas?

Maria em silêncio escuta
ao redor o que se passa.
Assiste incrédula e muda
ideias jorradas em brasa
por quem mais pode e usa
pressa em mostra de nada.

Sentada está a Maria
na soleira da calçada
tecendo contas à vida
tão difícil, agastada,
relembrando a correria
de canastra pelas casas -
venda que o peixe trazia -
e o pregão de cada dia
Maria soltava com graça.

Maria que o sonho abraça
com a ternura dos anos,
borda palavras em fitas -
nuvens, anjinhos, pecados -
sob o sol que tisna e traça
vínculos na face cansada.

Maria que os braços pende
com os olhos rasos de água,
pensa mas não entende
as projecções de gente
já tão rica e anafada
e que à plebe estende
migalhas, apenas migalhas.

Maria, simples Maria
mulher do povo, enjeitada
pelos anos de faina plana,
borda e ainda acredita
na liberdade, na Dita
tão triste, amarfanhada.


(pintura de Jaime Martins Barata)