Quarta-feira, Maio 14

Pensamento


"Se pensas que penso em ti
Não penses que pensas mal
Eu nunca pensei nem penso
Nem penso pensar em tal" *

Se, que pensas em mim, penso
Desde a Aurora à Madrugada
Que não te valha o tormento
No que penso, não és nada.

Se não pensas nem pensaste
Quando pensavas direito
A amarga ilusão que trajaste
Pele da minha é em teu peito.

E se versejando me avisas
Com tal denodada insistência
Crê que as folhas da tua vida

Jorrando assim pensamentos
Partes são da nossa existência
Em ternos, quentes momentos.


* versos que, desde menina, ouvia meu pai cantar

(pintura de Arlette Steenmans)

Quarta-feira, Abril 30

Pela calçada do tempo
























Caminhava o arrasto da sombra
sob a linha ténue da vida.

Curta a senda, longos os passos…
pela Rua das Flores que lentamente subia.
Da calçada, apenas o empedrado lhe sussurrava
uma canção antiga que trauteava baixinho
embalando a caixa de chocolate
nos seus braços trémulos e finos.

Extenuado, febril pelo sol do meio-dia
aninhou-se no degrau da soleira de uma casa
desfiando memórias encanecidas:
A licença obtida para ver a família;
A turbulenta viagem a bordo do Santa Maria;
Aqueles braços pequeninos que para ele corriam…

Adormeceu a existência do tempo
num envolvente sorriso.



(minha prestação para o 2º Jogo daqui )

Pintura de Frederick Judd Waugh

Sexta-feira, Março 21

Páscoa


Desejando
uma Feliz
Páscoa a
todos,
transcrevo
o texto de
Humberto
Tanure que
me foi enviado
pelo meu amigo
Manoel Carlos


"Páscoa é uma palavra hebraica, e a Páscoa Judaica (Pesach em
hebraico, Passover em inglês) celebra a liberação dos hebreus do
cativeiro egípcio, quando este povo atravessou o Mar Vermelho
guiado por Moisés.
Por outro lado, a Páscoa Cristã celebra a ressurreição de Cristo,
e é a data mais importante do calendário cristão.

As duas efemérides são interligadas no tempo, pois a Paixão de
Cristo aconteceu durante a celebração da Páscoa Judaica,
conforme descrito na Bíblia.
A Páscoa é uma festividade móvel, ou seja, é celebrada em uma
data diferente a cada ano.
Todas as demais festas móveis do ano eclesiástico são
estabelecidas a partir da fixação da data da Páscoa.

Seguindo o primeiro concílio de Nicéia de 325 d.C., o dia da
Páscoa Cristã é o primeiro Domingo posterior à primeira Lua
Cheia que ocorre no dia ou depois de 21 Março, o dia "oficial"
do Equinócio Vernal, ou Equinócio de Outono no Hemisfério Sul.
Note que se essa primeira Lua Cheia cair num dia de Domingo,
a Páscoa Cristã é celebrada no Domingo seguinte; a razão deste
deslocamento é evitar que a Páscoa Cristã venha a coincidir com
a Páscoa Judaica, que é celebrada no dia deste particular
plenilúnio, caia ou não em um Domingo.

A Páscoa Cristã sempre ocorre entre 22 de Março e 25 de Abril.
Para as igrejas cristãs ortodoxas, a data da Páscoa é calculada
segundo o calendário Juliano, e não pelo Gregoriano como é o
nosso caso.
Numa perspectiva mais ampla, a Páscoa dá continuidade a uma
tradição pagã milenar, a celebração da chegada do Equinócio, que
marca o final do Inverno e a chegada da Primavera, evento tão
importante para os povos primitivos do Hemisfério Norte.

Neste ano de 2008 a Lua Cheia Equinocial ocorre no próximo dia
21 de Março, Sexta-Feira Santa, e a Páscoa no Domingo seguinte,
dia 23 de Abril.

Como se vê, qualquer que seja a nossa inclinação religiosa, no
próximo Domingo temos muito o que celebrar.
Feliz Páscoa para todos!

Humberto Tanure"

(imagem Google)

Quinta-feira, Fevereiro 28

Divergência


Uma simples moldura
Um elaborado lenço

E…

O reverso da palavra
Em azul suspenso


(pintura de Eduardo Luiz)

Domingo, Outubro 14

Em silêncio canto

Canto o fio da mensagem
Condutor das horas mortas
Do vento as ondas, a dor
Quando bate à minha porta

Canto a barca florida
Deslizando em mansas águas
A breve nota, distraída
Que me enleia e me abraça

Os finos véus de areia canto
Do deserto em ouro tecido
O luar, o monte, o mar
Do sonho, a voz ao ouvido

Das crianças canto os passos
Em crescimento contínuo
E mesmo deitada danço
Palavras de sol e abrigo

E se por Ventura as canto
Desfolho searas antigas
Ternas memórias, encanto
No nomadismo dos dias

(pintura de Maxfield Parrish)

Quarta-feira, Agosto 22

Vida é...


Dor, esperança, alegria.
Um sentir que se amofina ante um olhar calado.
Um mar que nos beija, encanta
e com seus passos de dança
desfaz rastos de outras vidas -
esboços na areia branca.
Um acto de amor em crescendo
no germinar de sementes entre sorrisos e dor.
Deserto onde uma flor desponta num arco-íris de cor.
Uma voz arrastada e rouca derramando a sua sina.
Fragmentos de vento na tristeza escondida
de seres que nada contam.
Uma omissão que se pinta em solfejos musicais
se sofrida, se faminta…
Um coração comprimido de um amor que não alcança
naquela mão estendida por ternura, da criança.
Uma montanha, uma rocha, uma árvore florida.
Simplicidade, fantasia, em fios de prata tecidas.
Uma nascente, uma fonte, uma pinga espreguiçada
que a sede ao velho mata
cansado e corcovado de tanto cavar a vida.
Banco ou vão de escada em cada canto, esquina
quando o tempo adormece pelas moitas e estradas
o arrasto do peso de dias das teias sem luz tecidas
nos passos amorfos, dolentes
dos malabaristas da vida.

De cegueira não entendo e sigo
serenamente
lançando amor e sorrisos
pela Vida


pintura de Jane Yechieli

(republico este poema em agradecimento às
amáveis palavras da pintora)

Terça-feira, Agosto 14

Talvez... Ave...

Talvez seja uma simples tela
em união de letras espalhadas
talvez um breve momento
espelho de vento que talhas
ou apenas um além em azul e prata
terra que bebes e não mata
a sede do teu rumo de silêncio

Talvez seja a ansiada espera
por ternura dos teus braços,
o sonho que em letras enfeitas
o teu mundo acordado
de penas e folhas secas
sobre a raiz do muro caiado
e que deparas da janela
entreaberta pela brisa suave

Fora eu esse talvez projectado
na substância diluída em cada traço
e dir-te-ia que o “era uma vez”
em contas de fado tecido
será da ave o doce abrigo
nas asas de um voo plano
em amor, dádiva e sorriso