sexta-feira, junho 30

Psst…


Imagem daqui



Psst… Sim! Tu… aí sentado
Conta-me histórias mudas
Circunscritas pelo silêncio
Que habitas vestes e usas
A todo e qualquer momento

Psst… Sim! Tu… que aí estás
Olhando para o outro lado
Quando em letras te falo
De tudo, menos da lua
Que dança por outro espaço

Psst… Sim! Tu aí… também
Que dizes chegar por bem
E o peso de um passado
D'intensos amores sem paz
Se verga em dedos cansados

Vá lá… Sorriam…
Esqueçam a amargura
Da vida triste e dura
Na solidão que enfrentam
Vá lá… Pairem serenos
Nesta voz que vos entende
Nesta mão que se estende
E em ternos laços acarinha
Os traços da melodia
Antiga, dolente e bela:
"Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera"

Vem… Vá lá!... E sorri
Sim! Tu… que estás aí…


Poema in "Transparência de Ser"


domingo, junho 25

Encontro do Verbo

tela de María de Echevarría
Ama-me ou esquece-me
Integralmente …
Para mim os meios-termos
São complementos
De palavras
Espaçadas por um vento
Em névoas baças

Ama-me ou esquece
A minha existência
Não há flores nem cores
Nem músicas dolentes
Quando crua enfrento dizeres
Repletos de sentimentos
Não claros

Assim me obrigo
Assim te quero
Nu... distinto dos outros
Repleto…
Mas se da fama fazes conceito
Enfrenta o rio de lama
A preceito…
Erecto…
Na verticalidade do espelho
Que te anima e clama

Esquece ou ama-me
Do verbo se faz a palavra
Radical e sem mágoa
Te leio

domingo, junho 18

Nas Cordas da Alvorada


Imagem de Vladimir Kush

Lançam-se fios e cordas
Memórias que o tempo espaça
No denso verde da floresta
Dançam os corpos leves
Em revolteios que encantam

Com seus passos de veludo
Uma sombra há que canta
Pelos verdes azuis e rubros
Das veredas deslizantes
De fungos líquens e musgos
Que as cordas não alcançam

Como braços pontiagudos
Descem das árvores liambas
Rodando contorcendo se desnudam
Ao vento que as escuta e chama
Com os seus orvalhos mudos
Quando a noite mais alto clama

São toques de sedução
Tendo as folhas como véus
E o luar bailando aos céus
Suspiros murmura e então
Nos fios a floresta s'enlaça
Numa ilusão escaldante

Só quando a noite se deita
E desponta a alvorada
Se ouvem os sinos mudos
Canções que o silêncio enfeita
Nas cordas que o tempo espaça
Memórias sorrisos instantes

terça-feira, junho 13

Recordações...


Imagem de Vladimir Kush


Um rio de memórias adormece em céu aberto
Histórias, saudades, em folhas sépia
Um saber em desamores correndo o dia
Fugazes, incautos e breves num trilho incerto

Tal como a página em branco que acredita
Ser preenchida por cada letra esvoaçante
Que fala, desdobra e movimenta a sua dita
Assim minha Verdade é forte e constante

Crendo ou não querendo sempre a espalho
E meu ser de areia se anima no deserto
Como vento dançando o pó das dunas, abro

Memórias, recordações, saudade dos tempos.
Pela ternura do sorriso franco e aberto
Nos caminhos correm brilhos leves, serenos.

quinta-feira, junho 8

Na Orla d' Água...


Imagem de autor desconhecido


Um dia
À minha porta o carteiro bateu
De mãos vazias…

Nas palavras soletradas
Por seus olhos já cansados
Lembrou-me daquela carta
Nas letras… despida …
Pelos Tempos espaçada
E que nunca fora escrita

Murmurou símbolos marcas
Doces contactos pintados
Em esvoaçantes sorrisos
O doce aroma dos laços
Que cada hora se criam
Nos atalhos dos caminhos

Falou da solidão das peles
Que só delas se vestiam
Na natureza adormecida
Da era da descoberta
Do ocaso do negro da luz breve
Tão profunda tão sentida
Levada p'ra parte incerta
Pelas correntes da vida

Tantas foram as palavras
Por seus olhos emitidas
Que pousada na orla d'água
Abri portas janelas da casa
Ao arco-íris da brisa

sexta-feira, junho 2

Pelo silêncio da tarde


J.W. Waterhouse

Um tudo-nada tu amas
Um nada-tudo desejas
Do cristal, as transparências
No tarde-nunca as vejo
E sobre as horas desatentas
Dançam flores de vento
Neste tempo das cerejas

No tudo – nada – nunca – tarde
Desfio contas salgadas
Em miríades luzentes
De sons vozes vontades
E plano serena nas águas
D' um azul bem diferente
Que em cantares se sente

Pelo silêncio da tarde