
Sempre te cubro, destapo
Me envolvo em teus fiapos
Quando pairo em tua voz.
Mas se faz calor ou frio
Em ti me aninho, sorrio,
M’embebo na pele de nós.
Te sento no banco a meu lado
Nas cordas silentes te agarro
Nesse dedilhar de fado dolente
Que percorre lesto, inconsciente
Num terno, breve momento
Em que solto te vejo, intenso.
Me acarinhas, dobras, caminhas
Num sopro de dedos apressados
Na viola qu’em traços de fado
Acedes, entonteces, confirmas
Com esses sons rubros, alados
Em gotas vertidos no espaço.
E cada vez que acaba o fado
Permaneço assim nesse estado
Suspenso, absurdo, irónico,
Anguloso, irreal, lacónico
E me pergunto, indago sem voz
Se a canção partida é voo de nós.


















