quinta-feira, janeiro 18

"Se... talvez um dia..."


Lemo-nos perdidos no tempo
Que o vento distancia
E perante o agreste silêncio
Vivemos cada momento
Como outrora se fazia


E sorvemos
O dedilhar de palavras
Rubras, escassas, imaculadas
No afago da brisa dolente
Que pelo espaço se doba
Desdobra e cala
Sob águas convergentes


E lentamente
Cerramos as pálpebras das asas
Quando a noite nos adentra
E mergulhamos no mesmo vão-de-escada
Onde os sonhos musicados
Afloram a pele ausente


Assim te bebo e te apreendo
Na hora do medo parada.
E pelos traços na estrada dos mares
Contigo percorreria
Se…talvez um dia…
De amor me falasses



(imagem recebida sem identificação do autor)
poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, dezembro 28

E do amor ...


Se soubesses, meu amor, o quanto
A saudade tece seus dias
Saberias, sim, saberias do seu pranto
E com leves véus cobririas
As letras breves … de encanto


Se soubesses do amor as suaves telas
Que pinto, desenho em branco
Abririas, sim, abririas folhas belas
Sobre a noite que, entretanto,
Te olvida, cinzela… calando


Mais do que tu soubesse eu do amor
Na placidez amena de um canto
Usaria em teias macias cada cor,
Contente,
E na pele do tempo banhada em flor
O areal da vida sorriria enquanto
Dormente
Meu colo embalas… de espanto


(imagem de Tolga)
Com carinho a todos desejo um Feliz 2007
Poema in "Transparência de Ser"

quinta-feira, dezembro 14

Apesar de tudo...


Apesar de tudo
Pelo silêncio se espalha um canto
Um voo desnudo
O azul abraço do espanto
No pêndulo em horas tecido.


Um breve instante, um minuto
No leito aveludado, branco
Do rio cantado quando lido
No ondular ameno da jangada.


Apesar de tudo
Os laços que em pontas dançam
Equilibram do chão as tábuas
No rosto corado das crianças
Em amor e claridade
Na voz alegre das palmas.


E pela brisa bafejadas
Reluzem serenas asas nuas
Sobre a foz que o rio alcança
Como o amor suspende a cidade
Adormecida em oiro
E em prata despertada.

(fotografia de Maurício Martins)

quarta-feira, novembro 29

Urgentemente


É urgente o amor
É urgente destruir certas palavras –
Ódio, solidão e crueldade…



É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.



Cai o silêncio nos ombros
E a luz impura até doer
É urgente o amor,
E urgente permanecer.



Poema de E. Andrade -
gentilmente enviado pelo amigo Vítor C.
(Foto de Verónica Carter)

sexta-feira, novembro 17

em rosa rubra

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura


Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos


Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura


Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra



Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

Poema in "Transparência de Ser"

segunda-feira, novembro 6

Sem Tempo ...


E conversas comigo…
E me embrenho nas palavras significativas
De símbolos pairando nas entrelinhas
Que desvio… desvias…
Como se o tempo delas não fizesse sentido

E falamos com leveza
Da futilidade dos dias
Da doença das viagens em cadência
Do tudo e do nada que temos
Na omissão constante de brilhos plenos

E sorrio… sorris…
Num prolongado breve momento
De um tempo ido… sem fim
E cruzam-se a esperança e a nostalgia
Entre nossos anos leves de vento
Encanecidos nos cabelos

Que fio… que fias…
Pelas palavras serenas
Merecidas e eternas
Numa entrega simbólica e plena
Sem tempo…


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

Poema in "Transparência de Ser"

sexta-feira, outubro 27

Flores


Espalham-se pelos caminhos
Os lírios, as açucenas
Os tapetes de rosas que trilhas
São cânticos de árvores antigas
Na sua rama serena

E dás-me as boas-vindas
E te desfazes em traços
Prolongando o abraço
Que o tempo distancia
E a hora treme de estrelas

E me dizes: corre, avança
Nesse cantar de criança
Desfolhado em brancas penas
Quando o silêncio se abre
Na acalmia que sabes
E em segundos voas, apenas

Descem pelas folhas, sobre mares
As orvalhadas pétalas das flores
Qual árvore por terra jorrada
Livre, já despojada
Dos sons utópicos da noite
Sorvendo do passado os lamentos
De quem seguiu outra estrada.

E os brados dispersos do vento
Em sol se abrem no aconchego
Do pó de areia no deserto
Como renascem no Outono
As flores delicadas e singelas
Em sorrisos ternos, amenos.
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 17

A Palavra e o Poema


Como eu gosto do sorriso matreiro
Bailando entre cada espaço branco de linhas
Quando desenhas ou pintas
A palavra túrgida
Na polpa sumarenta da escrita

Como eu gosto na palavra o desenho
Esbatido, sombreado em cada traço
Na concisão daquele toque inteiro
Como bagos de uva pendentes
Em rubro cacho

Como eu gosto no dedilhar leve os conceitos
Em comunicantes solfejos de música
E do perfume o sabor a forma lúdica
Pairando no corpo do céu
Onde no ilimite a paisagem copula

E a palavra avança voluntariosa e surda
Pelos espaços brancos gemidos de linhas
Sempre que a cobres desenhas ou pintas
No prazer do mistério feito véu
Desligada do ocaso que acende ou mina
O avesso do mundo onde o poema flutua


(pintura de Graça Martins)
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, outubro 10

O Regresso


E sempre me surpreendes
E me indago: porquê?
Se já nem o próprio tempo
Se reveste das folhas doces
E sombra sépia de nós é

E sempre me pergunto pelo farol suspenso
Pelo voar pleno, imenso
Entre as cores deslizantes de um só traço
Que na minha caixa guardo
E onde plano… inconsciente

Ao mesmo ponto de partida regresso
Leda, nua, incauta e breve
Da fuga que a razão proclama
Pela casa, o esquecimento
Pelas janelas que a brisa traça, abertas
Pelas portas irisadas, amarelas
Pelo alpendre das ondas translúcidas
Gotejantes em forma de letras
Na escada onde me abrigo e suspendo
O ar rarefeito do tempo

E releio do sorriso a envolvência
Dos pontos leves que sigo
Do silêncio a transparência
Quando em branco me sento
Leve me surpreendo
E me indago: porquê?!!!
Poema in "Transparência de Ser"

domingo, setembro 24

O Fado




Sempre te cubro, destapo
Me envolvo em teus fiapos
Quando pairo em tua voz.
Mas se faz calor ou frio
Em ti me aninho, sorrio,
M’embebo na pele de nós.

Te sento no banco a meu lado
Nas cordas silentes te agarro
Nesse dedilhar de fado dolente
Que percorre lesto, inconsciente
Num terno, breve momento
Em que solto te vejo, intenso.

Me acarinhas, dobras, caminhas
Num sopro de dedos apressados
Na viola qu’em traços de fado
Acedes, entonteces, confirmas
Com esses sons rubros, alados
Em gotas vertidos no espaço.

E cada vez que acaba o fado
Permaneço assim nesse estado
Suspenso, absurdo, irónico,
Anguloso, irreal, lacónico
E me pergunto, indago sem voz
Se a canção partida é voo de nós.
(Quase de partida para férias, agradeço a todos o carinho
que me têm dispensado. Quando regressar visitar-vos-ei
com satisfação.Até lá, fiquem com Luz e Paz nos vossos
caminhos).
Poema in "Transparência de Ser"

quarta-feira, setembro 6

Nunca…


Imagem de Jean del Ville


Criam-se hábitos e ritos
Sublinhados pelos anos
E no sufoco do grito
Mergulhos há que nos dançam
Em profundas mansas águas

No silêncio se medita
Içam-se frágeis cabanas
Dizeres de Nunca ditos
Pelas sombras se espalham
Como garras afiadas…

E pelos sulcos dos anos
Deslizam orvalhos pesados
Que ao longe saudades ditam
Em apelos e mensagens
No colo que tudo abriga
Que resolve e simplifica
Em suaves e ternas palavras
E que cobrindo se destapam
Das sombras surdas
Na inconstância dos passos.

Quantas vezes não existo...
Mas sou humana!
Poema in "Transparência de Ser"

terça-feira, agosto 22

Manto claro em rubros dias


Imagem de autor desconhecido

Teci um manto brilhante
De raio de sol, de estrelas
Do ondear da serrania
A sonoridade mais bela
Tudo misturei em verdes
Pinceladas, mui singelas
Onde eras? Não sabia…


Encanto meu, doce enlevo
Luz d’aurora, despertar
Sussurro de entardecer
Noite rubra do meu canto
Em cada letra te bebo
Sem haver um olvidar


Vagueio em mares revoltos
Ou mui ternas calmarias
Sentindo nos alucinantes
Mantos claros, rubros dias
Anseios loucos, tão soltos
Na tua busca incessante


Perdição minha, ternura
Feitiço, quimera de amor
Em súplica elevo a prece
No mar da lua enfraquece
Esta chama, fogo em pugna.
Do coração se me esquece
E me estremece o fervor

sábado, agosto 12

Reflexos


Tu tão longe e eu tão perto
Já ali, ao virar daquela esquina
Num degrau da escadaria estreita e fina
Nos passos sem rasto do deserto…
Mordaças nas ondas brancas do dia


Onde as cores no rosto se aninham
Como flores cantando alegria
No meu olhar circunspecto
Pela vida. E caminho… caminhas…
Tu tão longe e eu tão perto.


Balanço de letras escassas
Pairando nos fios das águas
Do meu céu verde em dança leve
Que avisto e que sinto
Na face colorindo reflexos
De ti, de mim, me espaço breve

sexta-feira, agosto 11

Trovas e contra-trovas em parceria III


Passatempo, passarinho
Passa tudo devagar,
Passando o tempo, sozinho,
Tempo custando a passar…

Marcos


Passarinho, passa o tempo,
Custando, tão só, a passar…
Te trago um alegre vento
Num passatempo entr’o mar.

E esta voz que s’encanta,
Sussurros do teu vozear,
Brincando como criança,
Sorri e dança… a cantar.


Amita
(imagem de Guy D'Alessandro)

terça-feira, agosto 8

Trovas e contra-trovas em parceria II

Segredos, me traz o vento
rodopiando ao passar
e me leva o pensamento
pelas correntes do mar

Belos e doces momentos
do vento dançando no ar...

Aqui o fado é saudade
Aí se samba alegria
Na distância a amizade
de cor me enche o dia.

Assim meu canto suave
sempre enlaça fantasia...

Amita



O vento que, em tempestade,
Transforma tal calmaria,
Trazendo felicidade,
Onde mais nada existia...

Vento que queima e que arde,
Transborda na poesia...

A saudade é lusitana
E brasileira também,
O vento nunca se engana,
Vento que vai e que vem

Vento me traz, doce nave,
As notícias de alguém...

Marcos

sexta-feira, agosto 4

Como dois rios...


Imagem de Susan Rios

Como dois rios*, atravessam o espaço
Na difusão da Beleza em palavras
Nada pretendem, nem querem
A solidariedade espalham
Em plena Dádiva

São rios de águas límpidas e claras

Por eles me curvo
Em silêncio os saúdo
E enlaço
Sobre meu leito sereno
De rosas luzentes e pálidas
Onde amanheço
Num mar de prata

(*)Estúdio Raposa e Poesia Portuguesa

quarta-feira, julho 26

Diálogo com a Tela


Um esboço tracei de ti
Na suavidade das linhas
Tão tuas… tão minhas…
Ditadas pelo espelho
Que de longe me seguia
Penetrava e… sorria

Compilei gestos em tiras
Um estar em acalmia
Um profundo amor despi
Nas cores que a tela abria
Em poros, sopros de vida
Pela noite em tons d’azul

Sendo agora o meu espelho
E se de branco estou vestida
Diz-me quem voa primeiro
Se sou eu ou se és tu
(pintura de María de Echevarría)

segunda-feira, julho 17

Aroma da Terra...


Imagem de autor desconhecido



Rasga-se o céu em cascata
Clamores de luz imprevistos
Brada a voz da trovoada
E saio pela noite, inebriada
No baile de cores que avisto

Um perfume, um aroma quente
Se espalham no ar e m' enlaçam
Este cheiro a terra molhada
Esta erva verde que sente
E sôfrega se abre
No deslizar da gota d' água

Estendo os braços, rodopio
Fogosa na música rubra
Que me fala e acaricia
Emanações de amor e vida
Na minha pele desnuda

Pela hora da noite me espaço
No leito da erva em compasso
E danço… danço embevecida
Sob o intenso laço do arrepio
No perfume a terra molhada

quarta-feira, julho 12

Encantamento




Como uma pluma, pairo
Em cada letra que espalhas
De melodia urgente
Na brisa que o tempo clama
E pelo silêncio da noite
Se sente…a chama.

Pedaços de azul, instância
Nas vestes que a noite abria
Leves, soltas, brilhantes
Sobre as águas transparentes
No vento de ti se encanta
Uma aragem diferente

No caminho percorrido
Mui breve foi a distância
Insana... demente...
E o aroma de saber-te
Perdurará para sempre
Mesmo que se silenciem
Os mares, os ventos…
E essa luz que ternamente
Se esparge ao ler-te
Por mim paira
Doce
Serenamente



(Pintura de Jimi Adeniyi)

terça-feira, julho 4

Histórias de Povo


Fotografia de Zacarias Pereira da Mata


Trôpego, desalinhado
Trazendo o peso dos anos
Metidos na algibeira
Lá vinha o Zé, esgotado
Em seu passo arrastado
Descendo a escadaria
De pedra escura e fria
Para os lados da Ribeira

"Medo? Não! O Zé não tinha!"
O consenso era geral
Na tasca do Ti Jaquim
Tão cheia de pessoal
Todas as vozes se abriam
Numa algazarra sem fim

Inda puto endiabrado
Danado p'rá brincadeira
De fundilhos remendados
Surripiava o que via
Pão, fruta, rebuçados
Tremoços às vendedeiras
E de olhar amarotado
Assobiava e sorria

Medo?! O Zé não tinha!
Clamavam a um tempo certo
Era um líder, era o chefe
Do séquito que o seguia
Quando começava a feira

Chegada a puberdade
Em abono da verdade
Justiça lhe seja feita
Não havia rapariga
Que não caísse na graça
Daquele olhar trocista
Da sua meiguice inata
A que a bondade sujeita

Ora afoito ora arredio
Sua sorte foi tentar
Tornou-se embarcadiço
Do bacalhau luzidio
No Norte que se diz mar
Entre choros e desditas
Nos lenços das belas Marias
Acenando pelo cais

Imigrou, sei lá que mais…
O seu rasto se perdeu…
De quando em vez
Uma letra aparecia
Breve e tão fugidia
Que o povo da Ribeira
Murmurava: "Talvez
Apareça nesta vida"
E foi o que aconteceu.

Na tasca do Ti Jaquim
E não sendo vez primeira
Uma interrogação se abria
Então porque assim descia
Trôpego, em desalinho
Quase sem nexo nem tino
A calçada da Ribeira
Se, medo, o Zé não tinha…


Poema in "Transparência de Ser"